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Jesus, nosso oftalmologista! (João 9.1-41) [Pr. Otávio Schlender]

Jesus, nosso oftalmologista! (João 9.1-41) [Pr. Otávio Schlender]
20 de março de 2017 Centro de Estudos Bíblicos

Jesus, nosso oftalmologista!

Texto: Jo 9.1-41.

INTRODUÇÃO

Em meu estágio, em São Luís, MA, conheci um jovem cego. Foi num sábado à tarde, enquanto ensaiava a peça teatral com os jovens, que iríamos apresentar no congresso interdistrital em Paragominas, PA. Esse jovem se apresentou simpaticamente e se assentou perto de alguns jovens. O curioso foi que ele era muito falante. Confesso que na hora estava me sentindo um pouco desconfortável, pois precisava corrigir alguns detalhes e ele interrompia várias vezes, inclusive dando “pitacos” de como poderíamos melhorar a peça. Bom, eu pensava com meus botões: “como esse camarada pode dizer alguma coisa se ele não tá nem vendo o que tá acontecendo?!”

Bom, depois do ensaio, conversamos um pouco e ele se mostrou interessado em participar do culto no Coroadinho, um bairro da periferia de São Luís, perigoso e de difícil acesso, devido a suas ruelas, muitas delas, esburacadas. Enfim, disse a ele que não seria possível porque o carro estava cheio. Mas ele insistiu. Na verdade, desconfiou que não estivesse dizendo a verdade. Disse para mim que tinha carteirinha para andar de graça no ônibus e que era só dizer onde era o lugar do culto que acharia. Novamente fiquei pensando: “se pra quem enxerga é difícil de encontrar o lugar, imagina pra quem não vê”. No entanto, como ele insistia muito, relatei para ele como se chegava lá.

Ele se despediu e foi em direção à parada. Me pareceu lógico de que ele iria pensar melhor, mudar de ideia, iria para casa e voltaria no dia seguinte para participar do culto na sede, que era mais acessível e tudo mais. Bom, nos arrumamos e, quando chegou a hora, nos dirigimos para o Coroadinho. Quando chegamos, para a nossa surpresa, lá estava o Eduardo, todo suado de tanto caminhar, sentado na varanda da D. Conceição, que morava em frente ao templo. Aquela visão foi algo que tocou profundo em mim. Quando ele reconheceu a nossa chegada, ele disse: “Não te falei Otávio, quem acredita sempre alcança”; e, completou, “quem tem boca vai a Roma”.

Realmente, ele estava coberto de razão. Pensava eu, equivocadamente: “ele nasceu cego, portanto não terá condições de chegar lá”. Que tolice da minha parte! Vemos tantos por aí, cegos, mendigos, paralíticos, aidéticos, prostitutas, etc… e como que, num acordo coletivo, classificamos as pessoas em patamares que nos sejam convenientes. Nossa falta de amor é expressa com frases do tipo: “Ah, eles já recebem atenção suficiente”; “O governo que tem que tomar conta deles”…  Às vezes, quando muito, damos um copo de água ou 1Kg de alimento não perecível e achamos que fizemos o suficiente.

Isso foi assim no passado e, ao que parece, o será para sempre. Na época de Jesus aconteceu um caso muito semelhante que demonstra como as pessoas estavam equivocadas com relação àqueles indivíduos que viviam à margem da sociedade saudável, bonita e moralmente exemplar. No entanto, o que a história do Evangelho de hoje quer mostrar é que como no fundo as pessoas estão equivocadas com relação a elas mesmas, na medida em que acham que podem ver tudo, se achando os melhores, mas são cegas para as coisas de Deus.

Quando Jesus passa por aquele cego de nascença, como ressalta a Bíblia, Jesus o atende com todo o amor que era próprio dele. Imediatamente o tratamento que Jesus dá a esse cego provoca uma reação comum nos discípulos, justamente porque Jesus não estava agindo como eles – e toda a sociedade – estavam acostumados. Por isso, este homem que nasceu cego tornou-se uma lição para os discípulos. Os discípulos não trataram aquele cego como um homem. Antes o viram como um exemplo vivo, uma prova visível da forma de pensar corrente da época. Por isso perguntam a Jesus: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego”?

Observe como a atenção é tão rapidamente desviada da necessidade principal daquele homem, que é a própria cegueira, ou ele completamente, para um argumento teológico ou filosófico. Veja ainda como nós fazemos a mesma manobra hoje. Diante das necessidades humanas, muitos de nós preferimos usar esses momentos para reforçar o nosso próprio sistema de crenças e pontos de vista. Em muitos casos, vemos uma pessoa em apuros e paramos, antes de tudo, para teorizarmos a situação.

Vamos ser sinceros! As manobras são inevitáveis para a maioria de nós. Temos um sistema de crenças que aprendemos desde criancinha. Temos boas razões para pensar como pensamos, não é? Claro que sim. No entanto, se esquecermos a pessoa real necessitada bem à frente de nós, então o nosso sistema de crenças e moral é inútil, não importando qual seja a nossa convicção. Pois, como diz o apóstolo Paulo, nossa fé é ativa – e eu diria proativa – no amor.

“De quem é a culpa para que esse camarada nascesse cego” nós também dizemos. Afinal, quantas vezes levantamos a voz e nos perguntamos: “Por que existe pobreza, doença, marginalização, tráfico de drogas, AIDS, e tantos outros comportamentos que não coincidem com os meus? Quem é o culpado? A natureza, o governo, este homem ou seus pais?”

Jesus, como tantas vezes, responde com uma opção diferente daquelas que nós geralmente pensamos. Jesus disse:

“Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (v.3).

Que maneira maravilhosa de interpretar as necessidades humanas e o sofrimento! Quando Jesus vê alguém em necessidade, ele não usa o sofrimento dessa pessoa para desenvolver ideais moralistas e filosóficos. Antes, Jesus vê a oportunidade para reconhecer a obra de Deus na vida das pessoas. Aí nós começamos a entender a lição de Jesus, na medida em que a obra de Deus é revelada, não na declaração de moral, mas em um ato de misericórdia, em um ato que atenta para a necessidade em si.

Agora, eu tenho que admitir que a maneira que Jesus faz para curar o cego é bem estranha para nós do séc. XXI. Não é um procedimento médico que os doutores procuram imitar hoje. Jesus cospe na terra, faz um pouco de lama e, em seguida, coloca sobre os olhos do homem! Jesus, então, lhe diz: “Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo. (v.7).” A cena não quer mostrar o poder da lama que Jesus preparou, tampouco o tanque de Siloé como sendo um lugar que continha águas milagrosas. Na verdade, Jesus quer mostrar que quem tem o poder de curar é o próprio Enviado de Deus, o Salvador do mundo que estava sendo desprezado por tantos da sua época, os quais, cegos no coração, não podiam ver e crer.

O homem vai embora, executa a tarefa, e retorna capaz de ver. O milagre é feito. Mas a história não termina aqui. Esse jovem ainda daria o que falar. Até aqui percebemos toda a compaixão que Jesus teve por um homem cego fisicamente, curando-o do seu problema físico. No entanto, a partir de agora nós vamos ver o problema que assola todas as pessoas, que é a cegueira espiritual. Veja como as pessoas são cegas para com diferentes situações de vida, mas principalmente com relação às coisas de Deus.

Em primeiro lugar, ouça o que aconteceu entre o homem cego e os seus vizinhos, aqueles que o conheciam de vista, como mendigo. Os vizinhos se perguntam: “Não é este o que estava assentado pedindo esmolas?” (v.8). Mais ou menos assim: “Uhm, esse cidadão não me é estranho”… “parece-me que já o vi em algum lugar”… “Sim”, alguns vizinhos afirmam, “ele é aquele homem cego, lembra?”…

“Não é não”, dizem outros. “Ele só se parece com aquele homem”… Finalmente, alguém teve o tino de perguntar ao próprio homem, que disse: “Sim, sou eu mesmo” (v. 9). Novamente, observe como os vizinhos preferem, em primeiro lugar, falar entre si, interpretar e tirar suas próprias conclusões, para apenas depois de não terem chegado a um consenso prestarem atenção real e segura no próprio homem.

“Então, como foram abertos os teus olhos?”

Perguntam os vizinhos.

“Um cara chamado Jesus fez lama, esfregou-a em meus olhos, disse-me para ir lavar no tanque de Siloé, e eu o fiz. Agora eu posso ver.”

Simples assim.

“Bem, onde está ele?” perguntam.

E o homem responde:

“Eu não sei.”

Quero destacar, meus irmãos, a simplicidade de fé que o homem cego de nascença apresenta diante das perguntas que lhe são feitas. Ele responde a todas elas com honestidade e frontalidade. Ele se recusa a especular sobre as teorias teológicas e políticas que a maioria vinha fazendo. Ele sabe apenas o que Jesus lhe pediu para fazer. Ele não fazia a mínima idéia de onde o cara chamado Jesus estava naquele momento.

Mas os vizinhos não se conformaram. Como que aquele “ceguinho” que eles estavam acostumados a ver pedindo esmolas em frente ao templo, agora estava ali diante deles, enxergando! Isso não estava bem explicado. Então eles levaram o pobre homem aos fariseus, o grupo devoto de líderes religiosos que eram os caras da época, capazes de dar um veredicto real. Mas, novamente, o homem repete sua história simples. Já os fariseus, bom… eles começam a discutir entre si. Consultam sua agenda teológica e concluem: “Como pode um homem curar no sábado?!” “É um sacrilégio”!

No entanto, até mesmos os fariseus estão confusos. Novamente perguntam ao homem que antes era cego: “O que você acha dele?” (v.17). A partir daqui a fé simples desse homem começa a ficar cada vez mais clara para ele. É como se começasse a ver, aos poucos, o que realmente havia lhe acontecido. Em reposta a pergunta dos fariseus, ele afirma: “Deve ser algum profeta”.

Mas os fariseus ainda estão divididos. Começam a duvidar se aquele homem nascera cego mesmo ou se era uma farsa. Eles decidem, então, ouvir o depoimento dos pais do pobre homem. Os fariseus botam uma pressão nos pais. Claramente se vê o receio que tinham em se regozijar com o filho que agora estava vendo. O medo de perderem os privilégios de participarem da Sinagoga, fez com que os pais respondessem apenas o obvio: “Sim, nós sabemos que esse é o nosso filho e que nasceu cego. Mas a razão porque ele pode ver agora, não temos nenhuma idéia (vv. 20-21)”. E então os pais, sem querer, mostram o que realmente devia acontecer. Eles dizem: “Perguntem a ele, ele é maior de idade”. Novamente, a recusa dos fariseus em ouvir a pessoa que estava em necessidade nos mostra a verdade. Na verdade, quando a pessoa está em necessidade, eles nos dirão a verdade. Na verdade, essa pessoa pode revelar Deus a nós, mas temos de perguntar a essa pessoa, e não especular entre nós.

Então os fariseus novamente voltam para o homem e dizem com arrogância: “ei você, dá glória a Deus, porque sabemos esse Jesus é um pecador.”

E, aqui, começa a crescer a confiança desse homem. Ele começa a ver tudo com mais clareza, então diz:

“Se ele é pecador ou não, isso eu não sei. Tudo o que sei é que eu estava cego, mas agora vejo. (v.25)”

A discussão se torna mais intensa. “O que ele te fez?” os fariseus perguntam. “Como é que ele abriu os teus olhos?”.

“Eu já te disse!” responde com coragem o homem curado. Acrescenta ainda: “Por acaso, vocês também querem ser discípulos dele”?! Isso foi o fim da picada para os fariseus.

Com fúria, eles respondem: “Discípulo dele é você”! “Nós somos discípulos de Moisés, por meio de quem Deus falou. Quanto a esse Jesus, nem sabemos de onde vem”.

O homem então, com ironia, rebate os fariseus dizendo: “Nossa, é de estranhar que vocês que dizem conhecer todas as coisas, não conheçam de onde vem Jesus”. “Só sei que ele abriu meus olhos e, com certeza, não poderia fazer isso se não viesse de Deus”.

Mas, agora vem o final da história, onde Jesus encontra o homem curado novamente. Agora vem o momento da reflexão. Depois de curado fisicamente o homem cego, Jesus lhe pergunta: “Você crê no Filho do Homem?”… “Mas quem é ele?” responde o homem curado, com a mesma honestidade que teve anteriormente.  Jesus então, lhe responde: “Eu sou o Filho do Homem, enviado por Deus para Salvar a humanidade… eu que falo contigo”…

E o homem curado afirma:

“Senhor, eu creio!”

Com essa proclamação, a cura, de fato, ficou completa. Agora aquele homem que nasceu cego não somente vê o mundo ao seu redor, com honestidade absoluta e completa, mas vê também o próprio Jesus, o Senhor e Salvador desse mundo, que pode trazer a nitidez completa aos olhos cegos dos corações das pessoas.

Concluímos, por isso, irmãos, que as especulações que fazemos apenas com a finalidade de defender os nossos próprios interesses, não passam de lama aos olhos de Deus. Eles servem muito mais para embaçar e sujar nossos próprios olhos e os das pessoas. Precisamos cuidar para não querermos ajustar as obras de Deus  de acordo a nossa visão humana, pois Jesus alerta que assim estamos agindo como cegos espirituais.

Nossa especulação humana, tão divertida e provocante como pode ser, jamais poderá compreender o incrível poder de Deus. Nunca podemos colocar a maravilhosa na caixinha dos nossos pensamentos e ideias tudo que representa Deus para a humanidade, sem que ele estoure os limites e as paredes de nossas agendas pessoais com uma luz nova.

Essa luz é Jesus, o Senhor, a Luz do Mundo, que irradia uma nova luz em nossas vidas. Jesus faz isso, não incidindo sobre as razões para a doença, com as justificações filosóficas da realidade, mas centrando-se sobre as necessidades humanas. Há pessoas que nos rodeiam cujas necessidades são tão familiares para nós que passamos a ignorá-las. Eles nasceram cegos, dizemos, e isso é tudo.

Jesus, porém, se recusa a passar reto por eles, assim como Jesus se recusa a passar reto por cada um de nós. Jesus quer tocar cada um de nós com a visão. E cada pessoa é cega para Deus e por tanto alvo do amor de Jesus. Nós aqui, portanto, temos o privilégio de portarmos a luz de Jesus com simplicidade e coragem assim como fez aquele cego de nascença. Vamos deixar que Jesus toque os nossos olhos hoje para que vejamos a Luz do Mundo. Amém.

Fonte: eunaluterana.webnode.com.br